Archive for the ‘Filosofia’ Category

h1

O Sorriso de Obama

04/11/2010

Aproveito o término do período eleitoral brasileiro, para compartilhar com vocês um artigo meu publicado no jornal Hoje em Dia, logo após a eleição do presidente americano Barak Obama.

O SORRISO DE OBAMA

Com a eleição histórica do primeiro negro a ser presidente da maior potência mundial, os Estados Unidos da América e o mundo se curvaram diante do sorriso de Barak Obama. Craque em oratória e dono de um carisma contagiante, Obama teve uma trajetória meteórica na política americana, alcançado a presidência dos Estados Unidos em pouco mais de dez anos de carreira política. Em meio ao clima de euforia mundial, uma pergunta surge inquietante: a eleição do jovem democrata será benéfica ao Brasil?

Penso que tão importante quanto arriscar previsões acerca da política externa americana para o Brasil ou os países da América Latina, é fazer uma reflexão acerca do significado histórico da eleição presidencial nos Estados Unidos. Num país onde há menos de meio século os negros sequer tinham direito ao voto, a eleição de Obama traduz a atitude de uma sociedade no sentido de vencer preconceitos intensamente enraizados em sua formação histórica.

Ao eleger um jovem negro para ocupar a Casa Branca, os americanos disseram ao mundo que estão cansados da atitude arrogante do modo de fazer política do Partido Republicano, além de demonstrar que é possível e salutar vencer os diversos tipos de preconceitos em prol do bem comum. Parafraseando o Ministro Brasileiro das Relações Exteriores Celso Amorim, “a esperança venceu o preconceito”.

O Brasil nos apresenta hoje um verdadeiro abismo social. Temos umas das mais desiguais distribuições de renda do mundo e uma sociedade que não garante igualdade de oportunidade a todos os cidadãos. Não temos no Brasil um preconceito racial tão evidente como nos Estados Unidos, mas o preconceito social salta aos olhos. Vivemos em um país extremamente dividido socialmente.

Neste sentido, penso que deveríamos seguir o exemplo americano. Precisamos vencer preconceitos e mudar radicalmente os paradigmas atuais. Nossa sociedade precisa urgentemente diminuir a distância entre as classes sociais, a fim de que cada um tenha acesso à sua parte do “bolo”.

É verdade que a eleição e reeleição de um sindicalista que não possui curso superior, para a presidência do Brasil, pode e deve ser considerada como um avanço neste sentido. Mas, ainda há muito o que fazer. A ascensão de Obama ao poder é o reflexo de um processo histórico de movimentos sociais pelos direitos civis dos negros, cujo pacifista Martin Luter King foi o seu maior expoente. No Brasil, no que se refere à questão social, tal processo inexistiu. Nossos movimentos sociais, que já eram escassos, foram completamente esmagados pelo regime ditatorial. Hoje, as vozes das classes sociais marginalizadas, como o MST por exemplo, ou se desviam do seu objetivo central que é promover a igualdade de oportunidades, por motivos políticos; ou são completamente combatidas pelas elites dominantes.

Para que possamos construir uma nação mais digna é preciso que a sociedade brasileira tenha a coragem de encarar de frente o seu oposto. Os movimentos sociais devem ressurgir, mas não para representar interesses políticos de “A” ou “B”, e sim para promover um verdadeiro diálogo entre as classes, a fim de que estas interajam e aprendam a conviver com suas diferenças, dando a cada um o que lhe é de direito. Somente desta forma iremos vencer o preconceito social que fomenta o abismo que separa ricos e pobres neste país.

Espero que o “sorriso de Obama”, nos ajude a trilhar esse caminho.

Julian Faria.

Anúncios
h1

A Ética de Sócrates

27/01/2010

Uma das figuras mais emblemáticas da filosofia ocidental, Sócrates é um divisor de águas para a filosofia antiga. Isto porque situava o seu pensamento e especulações na natureza humana e suas implicações ético-sociais e não na cosmovisão das coisas e da natureza. Sócrates não deixou obras escritas, razão pela qual tudo o que sabemos a seu respeito tem origem no trabalho dos outros. Estima-se que tenha nascido em Atenas por volta do ano 469 a.C., tendo sido condenado à morte pelos juízes desta cidade no ano de 399 a.C.  Mas, o que faz o seu pensamento um importante marco na história da ética?

Pois bem, Sócrates erigiu uma linha de pensamento autônoma e originária que se voltava contra o despotismo das palavras, interagindo e reagindo ao movimento dos sofistas, muito em voga nesse período da história grega.  Seu método maiêutico era baseado na ironia e no diálogo, tendo como finalidade uma parturição de idéias. Logo, para Sócrates, todo erro é fruto da ignorância e toda virtude é conhecimento. Daí a importância de reconhecer que a maior luta humana deve ser pela educação e que a maior das virtudes é a de saber que nada se sabe.

A ética socrática reside no conhecimento e em vislumbrar na felicidade o fim da ação. Essa ética tem por objetivo preparar o homem para conhecer-se, tendo em vista que o conhecimento é a base do agir ético. Ao contrário de fomentar a desordem e o caos, a filosofia de Sócrates prima pela submissão, ou seja, pelo primado da ética do coletivo sobre a ética do individual. Neste sentido, para esse pensador, a obediência à lei era o limite entre a civilização e a barbárie. Segundo ele, onde residem as ideias de ordem e coesão, pode-se dizer garantida a existência e manutenção do corpo social. Trata-se da ética do respeito às leis,e, portanto, à coletividade.

A abnegação pela causa da educação dos homens e pelo bem da coletividade, levou Sócrates a se curvar ante o desvario decisório dos homens de seu tempo. Acusado de estar corrompendo a juventude e de cultuar outros deuses, foi condenado a beber cicuta pelo tribunal ateniense.  Sócrates resignou-se à injustiça de seus acusadores, em respeito à lei a que todos regia em Atenas.

Para esse proeminente filósofo grego, o homem enquanto integrado ao modo político de vida deve zelar pelo respeito absoluto às leis comuns a todos, mesmo em detrimento da própria vida. O ato de descumprimento da sentença imposta pela cidade representava para Sócrates a derrogação de um princípio básico do governo das leis, qual seja, a eficácia. Segundo Sócrates, com a eficácia das leis comprometida, a desordem social reinaria como princípio.

Assim, são muitas as lições trazidas pela ética socrática: o conhecimento como virtude; a educação como forma de conhecer a si mesmo e, por consequência, conhecer melhor o mundo para alcançar a felicidade; a primazia do coletivo sobre o individual e, a obediência às leis para garantir a ordem e a vida em sociedade. Sábias ideias. Se os agentes políticos e a sociedade em geral pensassem assim, teríamos, com certeza, um país mais justo e solidário.

Julian Faria.

h1

Tempos líquidos

19/11/2009

Zygmunt Bauman tem razão. Vivemos tempos líquidos. As metrópoles globalizadas são verdadeiros campos de batalhas onde os poderes globais se chocam com identidades locais. Todos os dias, de diversas formas, percebemos que a sociedade não é mais protegida pelo Estado. Tal quadro gera em todos nós uma angustiante sensação de incerteza e desesperança no futuro.

A minha intenção com este Blog é promover um espaço onde o direito e a filosofia sirvam como uma ponte para o exercício de uma cidadania plena.  A proposta é que possamos construir um mundo melhor e mais justo, através do exercício diário de formulação de idéias e soluções.

Parafraseando Vandré, este Blog é dedicado àquelas pessoas que “acreditam nas flores, vencendo o canhão”. “Flores” que representam o resgate da verdadeira cidadania, a inclusão, a liberdade de idéias, as letras, o direito e a filosofia, vencendo o “canhão” da desigualdade, da desesperança, da injustiça e da alienação típica desses tempos líquidos.

Da teoria, é importante que passemos em breve à prática. Mas, antes, comecemos a pensar.

Julian Faria.